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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA


*   *
Não é ainda a pele, apenas

Não é ainda a pele, apenas
um rumor de lã nas camisolas, um recado
a lembrar tardes no feno, linho lavado, o sol
mordendo um rio pela manhã ―
assim a distância entre a minha mão e o pessegueiro.

Na estrada
as flores demoram-se até às laranjas,
mas o aroma do pomar faz sede e os olhos cegam
na promessa de gomos novos e doces, os mais doces. Talvez

por isso se continue a viagem sem olhar para trás.


Maria do Rosário Pedreira (n. 1959)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

FERNANDO GUIMARÃES


*   *   *

ECO

Que lábios lhe pertencem
se a palavra que chega
vem de nenhum lugar?

                                      Fernando Guimarães (n. 1928)

(extraído da Revista RELÂMPAGO nº. 29/30 – Outubro de 2011/Abril de 2012)


domingo, 2 de dezembro de 2012

ANTÓNIO ALEIXO (3 quadras)


*   *   *

1.

Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência,
Que às vezes fico pensando
Que a burrice é uma ciência!

2.

Para não fazeres ofensas
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.

3.

Sei que pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço
Que não parecendo o que são,
São aquilo que eu pareço.


                António Aleixo (1899-1949)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

ANTÓNIO GEDEÃO



*   *   *

Estrela da Manhã

Numa qualquer manhã, um qualquer ser,
vindo de qualquer pai,
acorda e vai.
Vai.
Como se cumprisse um dever.

Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;
nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.
E em seu impessoal desejo latejam todos os restos
de quantos desejos ficaram antes por desejar.

Abre os olhos e vai.

Vai descobrir as velas dos moinhos
e as rodas que os eixos movem,
o tear que tece o linho,
a espuma roxa dos vinhos,
incêndio na face jovem.

Cego, vê, de olhos abertos.
Sozinho, a multidão vai com ele.
Bagas de instintos despertos
ressuma-lhe à flor da pele.

Vai, belo monstro.
Arranca
as florestas com os teus dentes.
Imprime na areia branca
teus voluntariosos pés incandescentes.

Vai

Segue o teu meridiano, esse,
o que divide ao meio teus hemisférios cerebrais;
o plano de barro que nunca endurece,
onde a memória da espécie
grava os sonos imortais.

Vai

Lábios húmidos do amor da manhã,
polpas de cereja.
Desdobra-te e beija
em ti mesmo a carne sã.

Vai

À tua cega passagem
a convulsão da folhagem
diz aos ecos
«tem que ser».

O mar que rola e se agita,
toda a música infinita,
tudo grita
«tem que ser».

Cerra os dentes, alma aflita.
Tudo grita
«Tem que ser».

                                António Gedeão (1906-1997)

domingo, 7 de outubro de 2012

HERBERTO HELDER


*    *

*

estende a tua mão contra a minha boca,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo

                                   *  *

sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sopro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria

                                           Herberto Hélder (n. 1930)

(do livro «A Faca Não Corta O Fogo - súmula & inédita»
- Assírio & Alvim, 2008)

terça-feira, 2 de outubro de 2012

ANTÓNIO OSÓRIO


*    *

CADA SEGUNDO

Não desejo a indigência,
a serenidade
dos lugares desertados:
desejo que cada segundo
quando amo
                         explodisse
e fosse a terra
em sua expansão
durante a primeira noite,
a gestante,
do mundo. 


                      António Osório (n. 1933)


(do livro «O Lugar do Amor»)


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA


*  *  *


    (As palavras começam a ficar velhas)

    As palavras começam a ficar velhas: têm
    dores nas articulações e rangem, de vez
    em quando, sem razão; reclamam óleos
    e resinas, tempo e açúcares mais lentos.

    Mas também eu estou velha demais para
    oficinas, tão cansada de livros e papéis,
    morta por viver outras coisas - por amor,

    talvez espreitasse de novo nas mangas do
    mundo e escrevesse uma fiada de búzios
    no pulso da areia. Mas quantos dos teus
    beijos perderia? Perdoem-me os que

    ainda esperam por mim. Não sei se volto.

                                Maria do Rosário Pedreira (n. 1959)

    (do livro «Poesia Reunida» - Quetzal, 2012)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

DANIEL FARIA



*   *   *

CONSERTO A PALAVRA

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame

Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela

E ilumino-a

                                               Daniel Faria (1971-1999)

(do livro «Homens que São como Lugares Mal Situados»)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

ANTÓNIO RAMOS ROSA


*   *   *

(Chamo pátria de profundas veias)


Chamo pátria de profundas veias
a essa relação viva entre os homens se ela houvesse
e não esta condição de anónima indiferença
e de vaga identidade flutuante
sem cúpula e sem os templos brancos
com jardins de um ócio voluptuoso
É por isso que estamos condenados
à solidão de não pertencermos à dilatada força
que constitui um universo e projecta um horizonte
de humanidade viva em floração unânime
Somos apenas cúmplices da nossa inabilidade
e dos ornamentos com que a revestimos
para parecer que somos e ser o que parecemos
Quem escreve procura abrir um espaço numa muralha
tão opaca mas vaga e cinzenta
que esse espaço imaginado de branca identidade
não é mais que um aceno à possível liberdade
para além da sua glória profanada


                                            António Ramos Rosa (n. 1924)

(do livro «Pátria Soberana seguido de Nova Ficção» - Quasi Edições, Outubro/1999)


sábado, 25 de agosto de 2012

FADWA TUQANE



*   *   *

BASTA-ME

Basta-me morrer no meu país
ser nele enterrada
nele me dissolver e aniquilar
renascer como erva sobre a terra
renascer como flor
que uma criança crescida no meu país desfolhará
Basta-me ser no regaço da minha pátria
terra
        erva
                flor


                 FADWA TUQANE (Nablus, Norte da Cisjordânia – 1917-2003)

(do livro «Pequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea» - selecção e tradução de Albano Martins – Edições ASA, Fevereiro/2004)

- Considerada uma das melhores poetas árabes contemporâneas,
Fadwa Tuqane foi uma das pioneiras
no uso do verso livre na poesia árabe.
Recebeu vários galardões internacionais, entre os quais, em 1996,
o Prémio de Honra da Palestina para Poesia. -

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

NUNO COSTA SANTOS


*   *

LOJA DO CIDADÃO

Povo de roupa lavada
que arrumas os assuntos da vidinha
nestes algarvios dias de Agosto,
dança comigo um melancólico kuduro,
festeja comigo
como, na Praça do Chile,
vi festejar um golo de Espanha
um grupo de russos e de chineses.

Trata por igual os que já cá estão e os
que ainda hoje de manhã
chegaram ao Aeroporto da Portela
para vender camisolas do Brasil no Martim
Moniz. Olha por este pequeno rapaz
nascido em Portugal,
chama-se Jairson, como o pai e o avô,
e traz no bolso dos calções o desejo, generoso e insensato,
de ser português
como tu.

                                               Nuno Costa Santos (n. 1974)

(do livro «Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme» - Companhia das Ilhas, 2012)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

ÁLVARO DE CAMPOS


*   *

Ali não Havia Electricidade

Ali não havia electricidade.
Por isso foi à luz de uma vela mortiça
Que li, inserto na cama,
O que estava à mão para ler -
A Bíblia, em português (coisa curiosa), feita para protestantes.
E reli a "Primeira Epístola aos Coríntios".
Em torno de mim o sossego excessivo de noite de província
Fazia um grande barulho ao contrário,
Dava-me uma tendência do choro para a desolação.
A "Primeira Epístola aos Coríntios" ...
Relia-a à luz de uma vela subitamente antiqüíssima,
E um grande mar de emoção ouvia-se dentro de mim...
Sou nada...
Sou uma ficção...
Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?
"Se eu não tivesse a caridade."
E a soberana luz manda, e do alto dos séculos,
A grande mensagem com que a alma é livre...
"Se eu não tivesse a caridade..."
Meu Deus, e eu que não tenho a caridade 


                    Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, in "Poemas"

 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

NATÁLIA CORREIA


*    *

Poema Involuntário
Decididamente a palavra
quer entrar no poema e dispõe
com caligráfica raiva
do que o poeta no poema põe.

Entretanto o poema subsiste
informal em teus olhos talvez
mas perdido se em precisa palavra
significas o que vês.

Virtualmente teus cabelos sabem
se espalhando avencas no travesseiro
que se eu digo prodigiosos cabelos
as insólitas flores que se abrem
não têm sua cor nem seu cheiro.

Finalmente vejo-te e sei que o mar
o pinheiro a nuvem valem a pena
e é assim que sem poetizar
se faz a si mesmo o poema.


                       Natália Correia (1923-1993)
(do livro «O Vinho e a Lira»)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

ANTÓNIO RAMOS ROSA


*   *

Para um amigo tenho sempre

 
Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

                                                     António Ramos Rosa (n. 1924) 

(do livro «Viagem Através de uma Nebulosa» - 1960)


quarta-feira, 21 de março de 2012

PARA O DIA MUNDIAL DA POESIA (III)


*   *   *

Emprego e desemprego do poeta

Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia

Publicar versos em jornais que tiram milhares
talvez até alguns milhões de exemplares
haverá coisa que se lhe compare?
Grandes mulheres como semiramis
públia hortênsia de castro ou vitória colonna
todas aquelas que mais íntimo morreram
não fizeram tanto por se imortalizar

Oh que agradável não é ver um poeta em exercício
chegar mesmo a fazer versos a pedido
versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria
quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor
Bem mais do que a harmonia entre os irmãos
o poeta em exercício é como azeite precioso derramado
na cabeça e na barba de aarão

Chorai profissionais da caridade
pelo pobre poeta aposentado
que já nem sabe onde ir buscar os versos
Abandonado pela poesia
oh como são compridos para ele os dias
nem mesmo sabe aonde pôr as mãos

                                                           Ruy Belo (1933-1978)


(do livro «Aquele Grande Rio Eufrates» - 1961)

PARA O DIA MUNDIAL DA POESIA (II)


*  *

RECOMENDAÇÃO

Mergulha e dissolve essas tensões
que pelas tardes cálidas sobrenadam.

Abre valas no tempo e na razão
(a do aturdimento, a do esquecer
as noites de ti próprio) e manuseia
alfaias com todo o desvelo
- transformando em música e palavra
(a voz de ti nascida)
o vasto e árduo esforço de drenagem.

Não deixes que as nuvens por demais
te pesem, por demais assombrem
rios e horizontes e arvoredos - como
cancelas postas no ar da paisagem.

                                                                       João Rui de Sousa (n. 1928)

(do livro «Quarteto para as próximas chuvas» - Publicações Dom Quixote/2008)

PARA O DIA MUNDIAL DA POESIA (I)

sábado, 17 de março de 2012

SOPHIA


*    *

(Serenamente sem tocar nos ecos)

Serenamente sem tocar nos ecos
Ergue a tua voz
E conduz cada palavra
Pelo estreito caminho.

Vive com a memória exacta
De todos os desastres
Aos deuses não perdoes os naufrágios
Nem a divisão cruel dos teus membros.

No dia puro procura um rosto puro
Um rosto voluntário que apesar
Do tempo dos suplícios e dos nojos
Enfrente a imagem límpida do mar.

                                        Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

(do livro «No Tempo Dividido» - 4ª. edição, revista - Editorial Caminho/2005