sexta-feira, 7 de setembro de 2012

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA


*  *  *


    (As palavras começam a ficar velhas)

    As palavras começam a ficar velhas: têm
    dores nas articulações e rangem, de vez
    em quando, sem razão; reclamam óleos
    e resinas, tempo e açúcares mais lentos.

    Mas também eu estou velha demais para
    oficinas, tão cansada de livros e papéis,
    morta por viver outras coisas - por amor,

    talvez espreitasse de novo nas mangas do
    mundo e escrevesse uma fiada de búzios
    no pulso da areia. Mas quantos dos teus
    beijos perderia? Perdoem-me os que

    ainda esperam por mim. Não sei se volto.

                                Maria do Rosário Pedreira (n. 1959)

    (do livro «Poesia Reunida» - Quetzal, 2012)

sábado, 1 de setembro de 2012

ESPAÇOS DISPONÍVEIS


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                                                ESCLARECIMENTO

Caros associados e amigos,

Temos vindo a ser solicitados, neste espaço e na nossa página no facebook, para divulgarmos os espaços disponíveis na SMUP para a realização de eventos. Ora bem...
De momento, o principal espaço disponível é o da nossa cave, a qual se encontra quase concluída. A mesma pode comportar entre 35 a 70 lugares sentados, conforme a iniciativa a realizar. Dispomos ainda de uma pequena sala com cerca de 20 m2, à qual acresce parte do logradouro da fachada do edifício. O nosso grande salão não dispõe ainda do piso definitivo, pelo que a realização de bailes está fora de questão naquele espaço; mas nele podem realizar-se algumas iniciativas pontuais, sob certas condições (as quais não façam perigar o chão existente).
Portanto, apresentem-nos propostas que possam caber dentro destas limitações.
Obrigado e força!

 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

SÉRGIO GODINHO


DANIEL FARIA



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CONSERTO A PALAVRA

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame

Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela

E ilumino-a

                                               Daniel Faria (1971-1999)

(do livro «Homens que São como Lugares Mal Situados»)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

ANTÓNIO RAMOS ROSA


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(Chamo pátria de profundas veias)


Chamo pátria de profundas veias
a essa relação viva entre os homens se ela houvesse
e não esta condição de anónima indiferença
e de vaga identidade flutuante
sem cúpula e sem os templos brancos
com jardins de um ócio voluptuoso
É por isso que estamos condenados
à solidão de não pertencermos à dilatada força
que constitui um universo e projecta um horizonte
de humanidade viva em floração unânime
Somos apenas cúmplices da nossa inabilidade
e dos ornamentos com que a revestimos
para parecer que somos e ser o que parecemos
Quem escreve procura abrir um espaço numa muralha
tão opaca mas vaga e cinzenta
que esse espaço imaginado de branca identidade
não é mais que um aceno à possível liberdade
para além da sua glória profanada


                                            António Ramos Rosa (n. 1924)

(do livro «Pátria Soberana seguido de Nova Ficção» - Quasi Edições, Outubro/1999)


sábado, 25 de agosto de 2012

FADWA TUQANE



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BASTA-ME

Basta-me morrer no meu país
ser nele enterrada
nele me dissolver e aniquilar
renascer como erva sobre a terra
renascer como flor
que uma criança crescida no meu país desfolhará
Basta-me ser no regaço da minha pátria
terra
        erva
                flor


                 FADWA TUQANE (Nablus, Norte da Cisjordânia – 1917-2003)

(do livro «Pequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea» - selecção e tradução de Albano Martins – Edições ASA, Fevereiro/2004)

- Considerada uma das melhores poetas árabes contemporâneas,
Fadwa Tuqane foi uma das pioneiras
no uso do verso livre na poesia árabe.
Recebeu vários galardões internacionais, entre os quais, em 1996,
o Prémio de Honra da Palestina para Poesia. -

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

AVIDEZ


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«À pobreza faltam muitas coisas, à avidez falta tudo.»

 
Públio Siro